O Pedro olhou para o relógio de pulso. Os números luminosos informaram-no de que eram quase oito da noite. Ela estava atrasada como de costume. Provavelmente distraída a pentear os caracóis ruivos. Se demorasse mais do que quinze minutos a chegar iam perder a nave de regresso à Terra. Quem perdia o último transporte passava mais doze meses em Marte. Não havia segundas oportunidades. Era assim no ano de 3049.

O Pedro começou a andar ao longo da plataforma para cima e para baixo. Era como atravessar um campo de meteoritos, com os passageiros apressados, preocupados em entrar na cabine nos últimos minutos.

O Pedro pedia licença e desculpava-se por estar a andar na direção oposta, mas ninguém o ouvia. Estavam demasiado focados em não deixar ficar para trás a pequena bolsa que apertavam contra o peito. Era inconfundível a luz incandescente azul que cada uma delas tinha no topo. Indicava o bom estado do líquido no seu interior.

Onde é que estava a Sara? Ele olhou ao longo da cabine para as portas ainda abertas. Um apito curto avisou de que fechariam em dez minutos. O Pedro abriu e fechou as mãos nervosamente. Talvez ele devesse entrar e esperar lá dentro? Mas se ela não o visse na plataforma, podia achar que ele não tinha chegado ainda. E ele podia não a conseguir ver de lá de dentro para lhe acenar, e… e ele acabaria por se ir embora sem ela. E isso não podia acontecer. Tinham prometido não se separar.

Decidiu ir de novo até ao início da plataforma quando algo o agarrou por trás. Era uma mulher de cabelos negros e olhos aflitos. Ela estendeu as mãos, mostrando-lhe a sua bolsa. A luz incadescente que deveria estar azul estava agora vermelha. Ela continuou a olhar para ele como se lhe suplicasse ajuda. Mostrou-lhe uma fotografia suja de alguém numa cama de hospital. Depois sacudiu a sua bolsa freneticamente e lamentou-se com algumas palavras desconhecidas para o caso de ele ainda não ter percebido a mensagem.

O Pedro percebia. A sério que sim. Este líquido era o que trazia alguns dos humanos mais destemidos a este planeta desterrado. Descer às minas no interior de Marte para recolher um líquido milagroso com propriedades curativas, passar meses a fio sem ver o céu, sem ver o sol, sem ver árvores, sem ver a família, longe do único planeta que se conhecia, não era tarefa fácil. Mas a recompensa era vender o líquido às farmacêuticas a preço de ouro. Ou talvez poder curar um familiar. De qualquer modo, regressar finalmente à Terra sem ele era uma verdadeira derrota.

A mulher continuava a puxar-lhe o casaco e a implorar na sua língua desconhecida. O Pedro já estava habituado a comunicar por gestos com os emigrantes que vinham de todos os pontos do planeta Terra para trabalharem nas margens dos rios subterrâneos. Por isso limitou-se a encolher os ombros. Ele não a podia ajudar. Se a bolsa se rompia, o líquido no interior arruinava-se e já não tinha utilidade na Terra. Paciência. Ele encolheu os ombros uma vez mais e afastou-a com um braço.

Um novo apito soou das portas da cabine. Cinco minutos.